Os Dogon, habitantes do delta interior do rio Níger, no Mali, não são propriamente amantes da arte equestre uma vez que se encontram refugiados nas partes mais acidentadas e na longa falésia que percorre a Leste a parte do conjunto do delta do rio.
No entanto, e curiosamente, em estatuetas datadas do XIº ao XIVº século, representaram o homem a cavalo, recorrendo a estilos totalmente diferentes dos seus geograficamente opostos habitantes do delta, que vivem em superfície plana, e que foram antigos cavaleiros, os Guimbala.
A estatuária dos Dogon, no entanto, é mais homogénea no sentido estilístico, e permite uma maior interpretação do que a estilisticamente dispersa estatuária Guimbala. Ao mesmo tempo não se consegue, através da análise desta estatuária, obter uma coerência tão forte como aquela que se obtém estudando a estatuária dos Dogon, para além do facto de se não conhecer a mitologia dos Guimbala e se conhecer aquela dos Dogon.
E é neste facto que reside a maior curiosidade ainda na medida em que os Dogon, com laços quase inexistentes com o cavalo, acabam por construir a sua mitologia e a sua forma de ver o nascimento do Mundo através do cavalo.
A representação do homem a cavalo está ligada à história de uma personagem, Nommo, sacrificado pelo Deus Amma, e de cujo corpo desmembrado se fará a reconstituição dele ( Nommo) e através deste facto se possibilitará a purificação universal dos Dogon e a reconstituição de um novo mundo por Amma.
Nota: O processo de desconstrução / reconstrução do ser tido como criador ou principiador de um dado povo ou do homem em globo ( de ver que cada mitologia se considerará a verdadeira e logo admitirá com dificuldade que seres estranhos tenham tido um primeiro princípio diferente do seu ) encontra-se nestas páginas de antropologia cultural relacionado com outras culturas antigas - que não têm nada de africano, por exemplo, e cujo contacto cultural e influenciador só se poderá entender como tendo hipóteses remotas de ter acontecido - e designa, de alguma forma, o nascimento do mundo através da divisão de uma entidade primeira ( nestes casos personalizada ou identificada ). Não existe assim criacionismo no sentido típico do termo...mas sim construcionismo e ordenação / reordenação transformadora.
Após essa reconstituição, Nommo ressuscitado, desce à terra num veículo que transporta os elementos essenciais ao recomeço da vida: os primeiros ascendentes da humanidade, as primeiras sementes, os seres vegetais e animais.
O mito conta ainda que, após a sua chegada à terra, Nommo se metamorfoseia em cavalo para transportar o prato do culto ritual (um prato com uma escultura da cabeça de um cavalo e uma cauda de cavalo nos bordos opostos) até ao rio, local onde este prato se transforma numa piroga.
Noutros casos, o prato é comparável a um carro dentro do qual se encontram pequenas estatuetas em madeira e em ferro, representando homens e cavalos, sendo que o cavalo representará Nommo e o homem (ou a cavalo ou ao lado) representará o próprio Deus Amma.
O cavalo (representando Nommo) é chamado pelos Dogon como sendo o "poder de Amma" assimilando-se assim este à extensão rápida dos seres sobre a terra.
Sendo não cavaleiros, os Dogon incluíram a figura do cavalo nos seus mitos a fim de poderem dotar o seu herói, Nommo, das qualidades que eles reconhecem e admiram no cavalo: a força, a velocidade, a capacidade de percorrer rapidamente grandes espaços.
Contudo, o cavalo representando Nommo tem ainda uma particularidade: cada uma das suas partes constituintes é, de alguma forma plasticamente autónoma do restante dos componentes (o que nos leva ao corpo desmembrado de Nommo), e permite ao escultor alterar os detalhes dentro de uma margem que mantenha apesar disso o equilíbrio do todo.
Esta variabilidade metamórfica está contudo ligada a um outro aspecto da mitologia dos Dogons: a estrutura do mundo na concepção que os Dogons atribuem ao seu fazedor / refazedor Amma está dividida em 22 categorias que incluem no seu todo 266 símbolos significando os seres e as coisas originais.
O escalonamento dessa diversidade, e a sua inclusão dentro das categorias não é conhecida, mas compreende-se perfeitamente que cada uma das categorias não se divide num número de símbolos (seres ou coisas) iguais (22x12=264). Logo, esta disparidade, ou não linearidade, terá provavelmente a ver com a incerteza da transmissão oral do mito, mais do que com uma ideia formalmente bem organizada.
Contudo, fica ainda para reparar que o cavalo (Nommo) acaba por representar plasticamente (dada a sua característica específica na conformação independente dos seus membros) uma forma de significar a diversidade do próprio mundo representado na vontade de Amma.
Estes mitos da desmembração e reconstituição estão presentes noutras mitologias bem distantes geograficamente de África, embora se possa pensar que sendo a região de influência muçulmana, os mesmos possam ter tido a sua origem na Índia.
Contudo pendemos mais para a possibilidade ( sugerida em nuance acima ) que exista sim um leque restrito de possibilidades coerentes de interpretação do começo do mundo e do homem e que desse aproveitamento das possibilidades resulte, em culturas afastadas e sem contacto determinante conhecido, uma semelhança interpretativa formal.